“Eu disse que passaria, com a esperança de que não doesse. Enganava-me. Doía como nunca. Como se eu não pudesse suportar. O peito inflava com a dor de segurar cada lágrima. Engolia palavras que talvez não fizessem sentido algum. E esperava. Perguntava-me até onde doeria. Não obtinha respostas. O cheiro, o vento, a mágoa. Tudo acumulava-se. Eu não entendia. Nem mesmo que explicasse ou desenhasse. Eu nunca entenderia porque tinha que doer tanto. Eu só sabia que não importa quantas palavras, conforto não havia e temia. Temia porque nada seria suficiente. E sentia tudo. Intensa e drasticamente. Porque engoliria o medo e angústia. Enrolava-se. Gastava-se. Errava-se. Como se houvesse solução, mas não havia. Nem que revirasse o mundo e indagasse mínimas perguntas. Nada seria dito. Silenciava-se. Não importa o quanto doía, ninguém entenderia. Ninguém suportaria. Não importa o quanto falasse, não irradiava-se. Obtinha desesperança, medo e cicatrizes. Inferiores, mas interiores também. Porque sabia que eram marcas e nunca sumiria. Nem de dentro, nem de fora. Continuaria, de forma dramática e entristecida. Como o úmido do rosto enfestado de lágrimas. Sumiria tempo depois e levaria toda a dor. Esperando que passasse. Passaria, mesmo que omitisse, mesmo que não acreditasse. Mas enquanto não passava, doía.”
B.M.

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